Eixo temático: Medicina do viajante / Vacinação de adultos Palavras-chave principais: medicina do viajante, consulta pré-viagem, profilaxia antirrábica, vacinas para viagem, infectologista viagem Tempo de leitura estimado: 7 minutos


Você já planejou cada detalhe de uma viagem internacional — passagens, hotel, passeios, mala — e saiu sem se perguntar uma única vez se o seu corpo estava preparado para o destino?

Se a resposta é sim, esse não é um caso isolado. A maioria das pessoas só pensa em saúde quando algo já deu errado: a febre que aparece no terceiro dia de viagem, a mordida de um animal que parecia inofensivo quando você foi alimentar, a diarreia que te impede de completar o roteiro.

A consulta de medicina do viajante existe exatamente para isso: antecipar riscos, adaptar vacinas, orientar profilaxias — e garantir que você chegue ao destino e aproveite, voltando para casa com tudo, inclusive a sua saúde.


O que é medicina do viajante?

É uma área da infectologia dedicada à saúde de quem viaja, seja para lazer, trabalho, missões humanitárias ou visita a familiares. A consulta deve ser feita idealmente de quatro a oito semanas antes do embarque e avalia:

  • Para onde você vai e o que vai fazer
  • Quais doenças são mais comuns naquele destino
  • Quais vacinas você já tem e quais ainda precisa tomar
  • Se há necessidade de profilaxia medicamentosa (como para malária)
  • O que precisa para levar as medicações de uso contínuo sem problemas na imigração
  • Como agir em casos de emergência no exterior

Destinos populares como a Tailândia, o Peru, a Índia, países da África do Sul e até algumas regiões do Brasil têm riscos específicos que muitos viajantes desconhecem.


As vacinas que as pessoas mais esquecem antes de viajar

Algumas vacinas fazem parte do calendário infantil e muita gente assume que está protegida para sempre. Outras simplesmente nunca foram divulgadas direito. Confira as mais relevantes:

Febre amarela

Obrigatória para muitos destinos na África e na América do Sul — e para algumas regiões do próprio Brasil, como o Pantanal, a Amazônia e partes do Centro-Oeste e Sudeste. A vacina é de dose única e oferece proteção por toda a vida.

Atenção: ela precisa ser tomada com pelo menos dez dias de antecedência. Alguns países exigem o certificado internacional de vacinação na entrada.

Hepatite A

Transmitida por água e alimentos contaminados, é um risco real em destinos com saneamento precário. A vacina é segura, eficaz e faz parte do calendário do SUS para crianças — mas muitos adultos nunca tomaram.

Febre tifoide

Outro risco alimentar frequentemente subestimado em viagens para o Sudeste Asiático, América Central e partes da África. Não está no nosso calendário vacinal habitual e precisa ser avaliado individualmente o risco e necessidade de uso antes da viagem.

Meningite meningocócica

Obrigatória para quem vai à peregrinação à Meca (Hajj e Umrah) e recomendada para viagens ao chamado "cinturão da meningite" na África Subsaariana. Também pode ser indicada para destinos com surtos ativos.


Raiva: a doença que você não espera até precisar

Aqui está uma das orientações que as pessoas mais se surpreendem quando vêm à consulta pré-viagem.

A raiva é uma doença viral, transmitida principalmente pela saliva de animais infectados — seja através de mordidas, arranhões e lambidas em pele ou mucosas com feridas. Uma vez que os sintomas aparecem, a doença é 100% fatal. Não existe tratamento após o início da doença.

A boa notícia: com a profilaxia correta, é completamente evitável.

Quando a raiva é um risco real para viajantes?

Em viagens para destinos onde a raiva em cães e outros animais ainda circula amplamente — como partes do Sudeste Asiático (Índia, Tailândia, Bali, Filipinas), África e América Latina — o risco de contato com animais infectados é real e muitas vezes subestimado.

Cachorros de rua que parecem dóceis, macacos em parques turísticos, morcegos em cavernas ou em acomodações simples: são exposições que acontecem com muito mais frequência do que as pessoas imaginam.

Profilaxia pré-exposição (antes da viagem)

Para quem vai a regiões de risco, existe a vacina antirrábica aplicada antes da viagem, em duas doses (dias 0 e 7). Ela não elimina a necessidade de tratamento após uma exposição, mas simplifica muito o protocolo — e, em alguns destinos, pode ser a diferença entre sobreviver ou não, já que a imunoglobulina antirrábica humana ou soro heterólogo (usados no tratamento pós-exposição em acidentes graves) pode ser muito difícil de encontrar em locais remotos.

Quem deve considerar a vacina pré-viagem:

  • Viajantes que vão a regiões onde a raiva em animais é endêmica
  • Quem vai fazer trilhas, acampamentos, voluntariado com animais ou atividades em cavernas
  • Viagens longas (mais de um mês) para áreas rurais ou remotas
  • Crianças, que têm maior chance de brincar com animais sem supervisão

O que fazer se houver exposição durante a viagem?

Independente de ter tomado a vacina pré-viagem ou não, a conduta imediata após qualquer mordida, arranhão ou lambida de animal suspeito é:

  1. Lavar imediatamente o local com água corrente e sabão por pelo menos 15 minutos
  2. Procurar atendimento médico o quanto antes — de preferência ainda no destino, ou ao retornar ao Brasil
  3. Não aguardar sintomas para buscar ajuda. Quando os sintomas aparecem, já é tarde.

No Brasil, a profilaxia pós-exposição (vacina + imunoglobulina, dependendo do caso) é disponibilizada gratuitamente pelo SUS nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) e em unidades de pronto-atendimento.

E no Brasil? O morcego é o principal alerta

Mesmo sem sair do país, a raiva é uma preocupação real. No Brasil, o principal transmissor hoje é o morcego hematófago (Desmodus rotundus), especialmente em áreas rurais e periurbanas. Mordidas de morcego são silenciosas e fáceis de deixar passar batido quando acontecem durante o sono.

Se você acordou e encontrou um morcego dentro de casa, ou alguém que você conhece estava dormindo em um ambiente onde havia morcego: busque avaliação médica. Não espere apresentar sintomas.


Com quanto tempo de antecedência devo fazer a consulta antes de viajar?

O ideal é de quatro a oito semanas antes da viagem. Algumas vacinas precisam de mais de uma dose, com intervalos específicos entre elas. Vacinas como a da febre amarela precisam de ao menos dez dias para garantir proteção.

Se a viagem for em menos de quatro semanas, ainda vale consultar — muitas orientações e profilaxias continuam sendo possíveis com menos tempo, mas o planejamento fica mais restrito.


A consulta é para mim?

Se você vai viajar — nacional ou internacionalmente — e quer ter clareza sobre o que precisa fazer para proteger sua saúde, a resposta é sim.

A consulta de medicina do viajante não é só para quem vai a destinos exóticos. É para qualquer pessoa que queira viajar com tranquilidade, sabendo que fez o que estava ao seu alcance para se proteger.

Atendo de forma presencial, em domicílio e por telemedicina — o que facilita a consulta mesmo para quem está no meio da organização de uma viagem. Entre em contato e vamos conversar antes do seu próximo embarque!


Dra. Luana V. Freitas — Infectologista | Medicina do viajante, vacinação e saúde sexual

Residência no Instituto de Infectologia Emílio Ribas · Mestranda em Saúde Coletiva – Santa Casa de SP